postais da ria (227)


iludi-me

0 ahcravo_DSC_2461 bw

torreira, 2016_o arrumar das redes da solheira

da estrada larga
dos luminosos caminhos
infinitamente breves
o maior está feito

o sonho a ilusão
aquilo que me fez correr
hoje nada mais que memória

olho para tudo
com o cansaço de ter feito
sem saber se algo feito foi

tenho a sensação de deixar
tudo como era
faz bem perder as ilusões

sempre me senti barco
mas iludi-me com o porto

iludi-me

 

os moliceiros têm vela (281)


carta aos resistentes

0 ahcravo_DSC_4257 s bw

não se darem as mãos
não serem um
habitado por muitos

admiro que ainda
perguntas-me como

só encontro uma palavra
amor

assim a terra
o entendesse

não se darem as mãos
não serem um
habitado por muitos

não é sonho
é viver ou morrer

0 ahcravo_DSC_4257 s

(regata do bico; 2017)

mãos de mar (32)


sorriem muito

0 ahcravo_DSC_2307 s

mãos de mar, mãos de luta

não tomam posição
sentam-se à mesa do mas
trocam ideias discutem
não concluem nunca

gostam muito do talvez
evitam nãos e sins

são espectadores
que querem palco
de bandeja sem suor

à janela dos dias
esperam um vaso de flores
no peitoril dos olhos

de tão subviventes
conseguem
ser sobreviventes

sorriem muito

(torreira; 2015)