mãos de mar (45)


redeiros

arte minuciosa essa
como se de aranha
labor de mãos sábias

recolho nelas
o terem sido antes de mim
muito antes
as mãos dos meus maiores

mãos duras e simples
de trabalho
mãos transparentes
e límpidas

mãos que faço minhas
com orgulho
de ser deles mais um

não escrever eu
como eles rede faziam
é o que me dói

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(torreira; 2015)

postais da ria (240)


deixa-os descobrir

deixa que pensem
a higiene mental diária
só lhes faz bem

ignoram porém
que tu também

as pedras no caminho
há sempre pedras no caminho
não são exclusivo de ninguém

deixa que pensem
que só as há no teu

entre a ignorância
e a sabedoria
a fronteira é ténue

deixa-os descobrir

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(torreira; saco de berbigão de 20 kg; 2009)

a beleza do sal (36)


há muitos futuros

o fim da ilusão
não mata a memória
enterra um futuro

na salgadeira a carne
esperava o verão

o cozido à portuguesa
a couve do quintal
a água do poço
o frango da capoeira

já não há enguias na ria

à limpidez dos dias
nos olhos nos afectos
sabores e saberes
regresso sempre

eis agora do sal a beleza
tempero de outros dias

há muitos futuros

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(morraceira; rer; 2016)