da vida
(“não há ensinamento maior que o exemplo” – bruno vieira amaral)
no fim
muito próximo
do fim
desaprendi

(espinho; recriação da xávega com bois; 2012)
da vida
(“não há ensinamento maior que o exemplo” – bruno vieira amaral)
no fim
muito próximo
do fim
desaprendi

(espinho; recriação da xávega com bois; 2012)
tenho sede
tenho a boca seca
de tantas palavras
e tão pouco nelas
como são pequenas
querendo ser algo
intenção apenas
um copo de água
um abraço
um ombro onde
escreva o poeta
poemas
eu quero gestos
tenho sede
da que se mata
com água

(armazéns de lavos; achegar; 2017)
redeiros
arte minuciosa essa
como se de aranha
labor de mãos sábias
recolho nelas
o terem sido antes de mim
muito antes
as mãos dos meus maiores
mãos duras e simples
de trabalho
mãos transparentes
e límpidas
mãos que faço minhas
com orgulho
de ser deles mais um
não escrever eu
como eles rede faziam
é o que me dói

(torreira; 2015)
para a ana
os anos passaram
rolos de corda
de uma outra safra
lembro-me de ti
e do alfredo
a teus pés menino
quantos rolos ana
quantas safras
o alfredo a crescer
a cada ano
um homem grande
o teu filho
menino por dentro
a sorrir
hoje lembrei-me de ti ana

(torreira; 2010)
deixa-os descobrir
deixa que pensem
a higiene mental diária
só lhes faz bem
ignoram porém
que tu também
as pedras no caminho
há sempre pedras no caminho
não são exclusivo de ninguém
deixa que pensem
que só as há no teu
entre a ignorância
e a sabedoria
a fronteira é ténue
deixa-os descobrir

(torreira; saco de berbigão de 20 kg; 2009)
o moliceiro

a água quebra
a rocha
o vento dobra
o ferro
o homem escreve
um sonho
palavras com vela
por sobre as águas
levadas pelo vento
o moliceiro

(murtosa; regata do bico; 2012)

há muitos futuros
o fim da ilusão
não mata a memória
enterra um futuro
na salgadeira a carne
esperava o verão
o cozido à portuguesa
a couve do quintal
a água do poço
o frango da capoeira
já não há enguias na ria
à limpidez dos dias
nos olhos nos afectos
sabores e saberes
regresso sempre
eis agora do sal a beleza
tempero de outros dias
há muitos futuros

(morraceira; rer; 2016)
contigo
estendo-te a mão
para que te ergas
não para me afundar
contigo

(torreira; aparelhar das mangas 2016)
ouço-te cacilda
indizível o silêncio
verbalizá-lo é negá-lo
escrevo silêncio
silenciosamente
ouço-te cacilda

mulher do mar da torreira, a cacilda
(torreira; 2016; carregar o saco)
vencer os dias
vencer os dias
como se degraus
caminhar contra
caminhar sempre
a dúvida por vezes
o cansaço
desistir é tão fácil
o caminho vai longo
duras são as pedras
que mordem os pés
vencer os dias

(torreira; 2013)