achega

achegar
fácil julgar o ontem
com os olhos de hoje
tão fácil que até tu
de juiz te vestes
papagaio
(morraceira, salina dos doutores; 2017)
achega

achegar
fácil julgar o ontem
com os olhos de hoje
tão fácil que até tu
de juiz te vestes
papagaio
(morraceira, salina dos doutores; 2017)
dos sábios e da sabedoria

sábios os que não falam
porque não erram
sábios os que nada fazem
porque ninguém lhes critica a obra
mais sábia a estátua
onde poisam pombas
que lhe cagam em cima

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)
espero-me

no refazer dos dias
não se refaz o sonho
a rede que fiz
afoguei-me nela
do mar trouxe pedras
quando outros peixe
fui pescador sem o ser
corri muito para nada
cansado de tanto
vou ser eu onde
espero-me mais além
(torreira; 2016)
iludi-me

torreira, 2016_o arrumar das redes da solheira
da estrada larga
dos luminosos caminhos
infinitamente breves
o maior está feito
o sonho a ilusão
aquilo que me fez correr
hoje nada mais que memória
olho para tudo
com o cansaço de ter feito
sem saber se algo feito foi
tenho a sensação de deixar
tudo como era
faz bem perder as ilusões
sempre me senti barco
mas iludi-me com o porto
iludi-me
o tamanho dos homens

os homens têm o tamanho
inverso dos seus medos
se o medo do mar
os faz grandes
o medo dos homens
os faz pequenos
fui ao mar em terra
e vi -lhes o tamanho

(torreira; 2016)
eis o cipriano

se um homem
se pode definir
pelo gesto
eis o cipriano

(torreira; 2008)

cipriano brandão (gamelas)
cipriano
não sei onde estás
sei onde te deixaram
cipriano
não nos vamos
encontrar mais
mas cipriano
fazes parte
da minha torreira
farás sempre

o cipriano, no mar, em 2010
(cipriano brandão_gamelas, torreira; 2010)
sou onde estou

rer
o meu lugar
é aqui
o meu tempo
é agora
a minha gente
é aqui e agora
sou onde estou

rer
(armazéns de lavos; 2017)
carta aos resistentes

não se darem as mãos
não serem um
habitado por muitos
admiro que ainda
perguntas-me como
só encontro uma palavra
amor
assim a terra
o entendesse
não se darem as mãos
não serem um
habitado por muitos
não é sonho
é viver ou morrer

(regata do bico; 2017)
escrevo porque

por vezes
só os barcos arribam
à mesma praia
não escrevo
para que me oiças
escrevo porque sinto

(torreira; 2013)