às mulheres da xávega
escrevo mulher
com éme de mar

a aurora e o aparelhar do saco
(torreira; 2016)
às mulheres da xávega
escrevo mulher
com éme de mar

a aurora e o aparelhar do saco
(torreira; 2016)
a mão de um amigo

a mão do ti alfredo fareja (falecido)
a mão de um amigo
será sempre
a mão de um amigo
mesmo se dela
a imagem
apenas
a imagem
opera na memória
a viagem no tempo
solares os dias ainda
os homens íntegros
inteiros
assim me acompanho
em dias de mais solidão
(torreira; 2006)

o zé pedro e o léo preparam a bateira para a regata
há uma criança
dentro de mim
é ela que te sorri

(torreira; s. paio; 2017)
meditação com sal

paulo formiga a “mexer”
os dias serão
sempre que tu
inteiro neles
(mexer; armazéns de lavos; 2017)
a matemática da vida
(para o ti manel valas)

o moliceiro “manuel silva” do ti manel valas que, com o o zé pedro a timoneiro, ficou em 2º lugar
somar tudo
estar vivo é isso
a matemática
é simples
ao final da soma
chamam total
e subtraem-te

o moliceiro “manuel silva” do ti manel valas que, com o o zé pedro a timoneiro, ficou em 2º lugar
(regata da ria; 2013)

em 1917 raul brandão publica a obra “Húmus”
em 1967, no cinquentenário da publicação de raul brandão, herberto helder publica o poema “Húmus” usando apenas palavras retiradas da obra homónima de raul brandão
em 2017, é a vez de rui miguel fragas publicar o livro “No húmus”, uma obra composta por 20 poemas em que “Todos os títulos dos 20 poemas que compõem este livro foram retirados dos 20 capítulos do Húmus de Raul Brandão, por ordem correspondente, segundo o texto da 3.ª edição (conforme edição Opera Omnia, 2017), uns literais, outros apócrifos …..”
a minha opinião? li-o e reli-o, como todos os anteriores e dele digo como de todos: venham mais que autor temos
do lançamento deste livro, que decorreu no dia 2 de dezembro de 2017, na biblioteca municipal da figueira da foz, fica o registo possível.
Biografia
Rui Miguel Fragas, pseudónimo de António Rui Féteira, nasceu em São Miguel de Poiares (Coimbra). Licenciou-se em filosofia na Universidade de Coimbra.Publicou alguns poemas e contos nas revistas Alma Azul, Aeroplano e InComunidade.
Tem três de poesia publicados: “O Nome das árvores” (Poética Edições, 2014), “Não sei se o vento” (Poética Edições, 2015) “O rumor das máquinas” (UA Editora,Universidade de Aveiro, IV Prémio Literário Aldónio Gomes, 2015). Participou na antologia de poesia “As Vozes de Isaque, Derivações Poéticas a partir da obra O Último Poeta” (Poética Edições, 2016).
Em 2017 venceu a VII edição do Concurso de Poesia na Biblioteca (Condeixa-a-Nova) e publicou uma antologia de contos: “A última rodada” (Poética Edições, 2017).
“No Húmus” é o quarto livro de poesia, o primeiro em edição de autor.
(Nota do autor: Todos os títulos dos 20 poemas que compõem este livro foram retirados dos 20 capítulos do Húmus de Raul Brandão, por ordem correspondente, segundo o texto da 3.ª edição (conforme edição Opera Omnia, 2017), uns literais, outros apócrifos. Do resto escutei os ecos do Húmus de Herberto Hélder, material e regra)
a escrita dos dias

reter
os gestos os rostos
as fainas os falares
as pegadas os rastos
não os meus não
por entre os dedos
o norte corre
a memória com ele
ficam as palavras
as imagens
um tempo descrito

(regata da ria; 2010)

c.p. 3870-155

o mar não é falso
é da sua natureza imprevisível ser
falsos serão os que
quando deles se espera que homens
coisa de fraco valor se revelam
por tão pouco se venderem

(torreira; 2016)
escrevo-me aqui
a certidão de nascimento
diz onde nasci nada mais
tenho um endereço
uma rua um número de porta
um andar um espaço
onde correio recebo e durmo
escrevo minha gente
e encontro-a em qualquer geografia
se de injustiça vítimas forem
a minha terra é uma aldeia
onde de centenárias raízes
bebo a água dos dias por haver
escrevo-me aqui

(torreira; s. paio; 2017)
é sempre verão
o servo
do senhor recebia
a parca paga e era sal
o vassalo
tempera as palavras
com ervas aromáticas
o senhor sorri
para ele é sempre verão

(rer; armazéns de lavos, 2017)