
aqui portugal, voltámos


as imagens têm nomes

houve os que partiram
há os que ainda
haverá outros amanhã
guardo muitos comigo
mais que os barcos
mais que as artes
os homens
as mulheres
a canalha
as imagens têm nomes
são gente
sinto-a poisada nos dias
(torreira, 2017)
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira
o trilho estreita-se

diz-se “mexer” (buíça)
o trilho estreita-se
desce entre precipício
e rocha a pique
a espaços um recanto
acolhe o corpo cansado
inesperadas pedras
tombam de onde nunca
ferem mais por isso
mas
não foi sempre assim?
(armazéns de lavos; 2017; mexer)
sonharei sempre

sonharei sempre
de olhos abertos
atento às palavras
recuso-me a ser
o que cala e aceita
sem questionar
também o sol
que aquece e ilumina
projecta sombra
que dizer da lua
e das suas duas faces
sonharei sempre
de olhos atentos
questionarei
deixo as certezas
para os treinadores
de bancada
levo comigo a dúvida
companheira amiga
na busca de saber
sonharei sempre

o “A. Rendeiro” com o ti zé rebeço e manel antão
(torreira; regata do s. paio; 2015)
durmo mal

safam-se as redes, limpa-se o lixo
sei demais
mesmo sabendo pouco
vivi muito
durmo mal
não me digas o que és
poderás iludir-me
com o dizeres-te-me
as ilusões são breves
por isso são
o tempo e tu mesmo
me dirão de ti
o que não me disseste
espero-te sentado
enquanto leio
não sei muito
mas vivi quanto baste
e durmo mal
não me embalas
com cantigas
(torreira; 2017)
vim de onde

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vim de onde quase
tudo ardeu
se de luto os homens
de negro foi a terra
que se vestiu
fumos brancos breves
brotavam das cinzas
memórias do inferno
depois de ter visto
sentido e cheirado
as palavras são só isso
para que não se repita
a espada tem de cortar o fogo
antes de mais fogo haver
há quem ateie agora
o fogo que lhe dá jeito
por mim deixo-os arder nele

(19/10/2017)
o meu país

o carregar do saco
o meu país é habitado
mora nas minhas fotos
nas minhas palavras
o meu país é de carne
osso e muito suor
mal pago
o meu país dói-me
e se luto faço
é porque luto
todos os dias
o meu país
é habitado
ainda
o meu país é de carne
osso e muito suor
mal pago
até quando?
(praia da leirosa; 2017)
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira