chove

entrançar palha – bracinhar – para fazer esteiras
na caixa do correio
as chaves
ao abrigo da chuva
difícil seria lê-las
se molhadas
(murtosa; festa do emigrante; 2014)
chove

entrançar palha – bracinhar – para fazer esteiras
na caixa do correio
as chaves
ao abrigo da chuva
difícil seria lê-las
se molhadas
(murtosa; festa do emigrante; 2014)
santa ignorância

o sacudir do saco
espanta-me a ignorância
dos que sábios se dizem
predicando asneiras
como se verdades porque
por si proclamadas
assusta-me a velocidade
com que o erro se propaga
pela mão desta gente
o que foi já não é
santa a ignorância
que constrói os dias
(torreira; 2011)
navegar

navegar
de corpo em corpo
ave na vertigem
de voar sem asas
amanhã será
se for
agora é

(murtosa; regata do bico; 2012)
viagem

a mulher, a muleta, o arinque, o barco adivinha-se, o mar sente-se
olho e sinto
como se hoje
a caminhada começa
pelo fim
que pernas estas
os olhos
por que caminhos
me levam
o sentir
as palavras
vou e fico
viajo em mim
(torreira; 2009)
fecho os olhos

fecho os olhos
para te ver
reinvento o corpo
desde a raiz o percorro
algures os lábios
eu sei
tão longe
(torreira; 2015)

apresentação realizada no auditório municipal da figueira da foz, integrada nos “7Sentidos”- Festa do Teatro e da Fotografia” organizada pelo Pateo das Galinhas – Grupo Experimental de Teatro.
a apresentação do livro foi feita por antero urbano e as falas interpretadas por actores do pateo: helena adão, ligia bugalho, filipa almeida, vitor silva e rui féteira.
o apoio da divisão da cultura da câmara municipal da figueira da foz, nomeadamente a disponibilidade de anabela zuzarte e da equipa técnica do auditório foi fundamental e inesquecível.
a todos os que estiveram presentes, ou por motivos inesperados não puderam estar, um grande abraço
(do evento fica o registo feito pelo amigo santos silva e editado por mim)
em 2018, o murtoseiro diamantino moreira de matos promoveu e organizou três sessões subordinadas ao tema “varinas”.
deu-lhes a designação genérica de “varinas dos pregões” sendo que cada sessão teve desenvolvimentos subordinados a temas diferentes, caracterizados no subtítulo da sessão.
assim, no dia 1 de agosto, a sessão designou-se “vivinha a saltar”, no dia 29 de agosto “a canastra dos artistas” – 1º lanço e, a terminar, no dia 26 de outubro “a canastra dos artistas” – 2º lanço.
foi neste 3º momento que fui convidado pelo promotor, organizador e autor do evento, diamantino moreira de matos, para participar dizendo poesia do meu livro “quando o mar trabalha” e fazê-lo com a companhia de outros amigos que diriam poemas do livro.
do momento poético deste evento, realizado no auditório municipal da murtosa e o primeiro das comemorações dos 92 anos do município da murtosa, fica o registo possível.
obrigado diamantino pelo saber, a arte e a amizade. como diziam os antigos: bem hajas
(nota: a foto de abertura do vídeo é da autoria de outro grande amigo, camilo rego. um muito obrigado e um grande abraço, amigo)
nesta sessão foi também visionado o registo por mim feito em 2016 com a emília russa e olívia borras, que de novo publico
Corrupção meu amor

Não, não é o título de um filme, sequer de um romance. É um drama que está em cena nos palcos de muitos países, de que se conhecem os nomes de alguns actores, mas cujo realizador prefere não constar do cartaz – chama-se dinheiro e foi ele que concebeu toda o enredo deste drama.
Os tempos mudaram, os países são outros, as utopias desvaneceram-se, o consumo e a ostentação deslumbram, o eu é cada vez maior que o nós.
Vivemos um tempo em que tudo se compra e muitos se vendem, para depois serem insultados por quem os comprou.
É este o modo de actuação do dinheiro: primeiro compra (nem sempre o consegue) os que se lhe opõem, depois denuncia os que se venderam, para os derrubar, escolhendo de seguida o que já é seu. Entretanto fica na sombra, bem instalado, assistindo ao espectáculo por si arquitectado.
Poderia ser este o drama do Brasil, poderia não, é mesmo.
O deslumbramento de alguns dirigentes e eleitos do PT perante o mundo que o dinheiro proporciona, eventualmente ligado a impreparação ideológica, tornou-os presa fácil. Depois foi só começar a lenta destruição dos deslumbrados.
Consultores pagos com bom dinheiro, foram tecendo a trama que levaria ao que estamos a assistir.
Durante a campanha eleitoral estalou uma guerra entre apoiantes dos dois candidatos à segunda volta – porque o ambiente é de guerra e, quem sabe, não vai ficar só pelo ambiente.
Calado, depois de dizer as maiores barbaridades – versão sul americana do vídeo “Trump in America” -, Bolsonaro espera. O dinheiro sorri.
Interessante notar a semelhança entre Trump e Bolsonaro, ambos rodeados pela família que também ocupa cargos políticos – de repente lembrei-me de Itália e o termo família fez-me secar a boca.
Temo pelos brasileiros todos, sem dinheiro ou com ele, mas que votaram e se manifestam contra Bolsonaro. O homem até já faz ameaças de morte! Temo pela América Latina, pela justiça e pelos injustiçados. Temo pelo regresso ao passado.
Sou pela limpidez dos procedimentos e contra a corrupção, defendo a justiça e os direitos humanos, sou pelo direito à diferença e por uma sociedade menos desigual.
Sou contra a corrupção, repito, mas isso nunca me levaria votar Bolsonaro, NUNCA.
Como diz o ditado “é pior a emenda que o soneto ”
#elenão #elenunca
visível em https://www.noticiasdeaveiro.pt/category/opiniao/
da escrita

o safar das redes da solheira
só escrevendo
me liberto
do que sinto
safar de outras
redes
da arte de viver
hoje não escrevi
(torreira; 2018)
ti zé

eles pensam que sabem
porque atrás do nome
têm um título
são ignorantes
e não o sabem
ti zé
você não sabe que sabe
por isso é sábio
sabedoria ignorada
a da vida
(torreira; 2015)