crónicas da xávega (376)


obrigado eugénio

praia da costa de lavos; 2019
dizer
o teu nome

dizer
tantas vezes a mesma palavra
até ela perder o sentido
a sua ligação com o nomeado

dizer
como é doloroso o parto
das palavras
que ainda não disse
ou se disse como as escrevi

dizer
tanto em tão pouco
ser imenso e ínfimo
límpido e complexo

escrever 
“com palavras amo”
e escutá-las
na boca do outro

os moliceiros têm vela (442)

os moliceiros têm vela (442)


de abril a vinte e cinco

torreira; regata da ria; 2013
de abril a vinte e cinco
o cravo barato vulgar povo
foi símbolo sem querer

sem espinhos foi sonho
sem espinhos foi ilusão

sem sangue cansados de tanto
abril a vinte e cinco foi porta
foi janela o poder ser se

fosse o cravo cacto espinhoso
no extremo a flor a colher
tivessem sangrado as mãos

fosses tu a colhê-lo
não o sonho ofertado

fosses tu a colhê-lo
fosses
; 2013torreira; regata da ria

postais da ria (387)


eu ainda

o ti zé formigo ainda está aqui comigo – (regata do emigrante; cais do bico; 2018)
tenho o passado 
num disco externo

chego devagar
lento é o tempo de

revejo amigos
idos para sempre

fui por inteiro
não me resguardei

se traidores houve
só um é culpado
eu por ter acreditado

a beleza do sal (118)


aqui agora

armazéns de lavos; achegar; rer; 2019
não desenho palavras
nem sei de outra música
que a das imagens
roubadas à vida

a máquina fotográfica
não gosto de câmera
os meus dedos
incapazes de desenho

nada de novo
trago aos dias

apenas isto
este estar aqui agora
a inventar