crónicas da xávega (230)


para o joaquim rodrigues
(massa)

queria dizer-te
que te admiro
massa

não porque cantes
melhor que o zé cabra
pior é difícil
tu nasceste para cantar

não porque a trabalhar
o faças como poucos
és energia pura

não pela tua alegria
os teus malabarismos
com o bordão na praia
és um artista nato

admiro-te
pela tua força interior
pelo modo como venceste
onde tantos sucumbem

tu és enorme massa
da tua fibra muitos
houvessem

massa assim é outra massa

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(torreira; arribar da mão de barca; 2012)

postais da ria (238)


cipriano

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cipriano brandão e a esposa aurora (2012)

estás aqui
mesmo que não estejas
em mais nenhum lugar
estás aqui

olhar o rosto de um amigo
é lembrar estórias
é estarmos vivos
num mundo que é só nosso

o da memória comum

0 ahcravo_DSC_6917 sep1

cipriano brandão e a esposa aurora (2012)

(torreira; safar redes; 2012)

os moliceiros têm vela (294)


o homem da beira-ria

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tão pouco uma palavra
e tanto nela se não dita
se negada depois de dada

aqui os homens
têm o tamanho da sua palavra

negá-la é negarem-se
o homem da beira-ria
é homem de palavra

ou ave de arribação

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(torreira; regata da ria; 2010)

a beleza do sal (34)


herança

dou-te o que me deram
serás não o que fui
mas mais muito mais

que doutras artes
mestre serás

serei em ti
a memória do gesto
do saber antigo
doutras vidas

herança de saberes
a que te deixo

farás por mim sal

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(morraceira; 2016; rer)