postais da ria (257)


impossível

impossível safar a vida
como quem redes safa

as mágoas que nas malhas
dos dias presas ficaram
não há mãos que as tirem
gestos que as sacudam
arredem para longe

límpidos ficassem os dias
de o terem sido sempre

estar vivo por vezes dói
safassem-se e outro seria
o que nestas palavras
preso ficará sem remédio

impossível safar a vida
como quem redes safa

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(torreira; safar redes; 2013 )

os moliceiros têm vela (312)


memória de um dia

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falarão dos barcos
dirão moliceiros

ninguém falará de ti
sequer saberão o teu nome

pouco te importa
hoje tens tempo de antena
roubado que seja
mas tens e sorris e falas
não sabes de amanhã
ignoras o ontem

os moliceiros digo
são aves frágeis sem asas

e tu sabes
porque lhes cortaste
as últimas

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(regata da ria ; 2010)

crónicas da xávega (256)


a mais ninguém

cinzentos
os dias sucedem-se
monótonos diversos
suceder-se-ão

o tempo
esse assassino impune
a cada dia me leva amigos
levar-me-á

o que o tempo
me não roubou ainda
homens levaram

perdoo ao tempo
é da sua natureza
a mais ninguém

a mais ninguém

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(torreira; a escolha; 2009)

 

postais da ria (256)


do saber ser

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o meu amigo alfredo miranda a entralhar

meticulosas mãos
sábias precisas

limpam redes reparam-nas
novas fazem se

haverá amanhã até um dia
sabem-no há muito

aprende com elas
o ser e o ter sido

há avarias irreparáveis
redes perdidas

meticulosas as mãos
sabem-no

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o meu amigo alfredo miranda a entralhar

(torreira; entralhar; 2013)

os moliceiros têm vela (311)


a meta

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entrou água no barco
como na casa a lama

ensurdecedoras as palmas
de quase gente
na casa de todos nós

não há pior cegueira
que a dos que vêem
nem palavras mais feras
do que as dos que mentem
ofertando-as como se verdades

do alto se fizeram ouvir
ao rebanho

seguiu-as quem quis
ou melhor não soube porque
muitos anos fazem obra
calejam discernimento

urge escoar as mentes
como o barco
para chegar à meta

(regata da ria; escoar; 2016)

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o amigo manuel antão, no moliceiro “A. Rendeiro”