faz-te ao mar

faz-te ao mar tóino
não há pão em casa tóino
faz-te ao mar tóino
talvez dê carapau tóino
faz-te ao mar tóino
talvez dê sardinha tóino
faz-te ao mar tóino
não tens outra vida
faz-te ao mar
faz-te

(costa de lavos; 2017)
faz-te ao mar

faz-te ao mar tóino
não há pão em casa tóino
faz-te ao mar tóino
talvez dê carapau tóino
faz-te ao mar tóino
talvez dê sardinha tóino
faz-te ao mar tóino
não tens outra vida
faz-te ao mar
faz-te

(costa de lavos; 2017)
impossível
impossível safar a vida
como quem redes safa
as mágoas que nas malhas
dos dias presas ficaram
não há mãos que as tirem
gestos que as sacudam
arredem para longe
límpidos ficassem os dias
de o terem sido sempre
estar vivo por vezes dói
safassem-se e outro seria
o que nestas palavras
preso ficará sem remédio
impossível safar a vida
como quem redes safa

(torreira; safar redes; 2013 )
sobram palavras
hoje
guardo as palavras
para outro dia
chove em junho
o sol tarda
com ele o sal
não sei
quando o verei tirar
mau vai o ano
para quem dele vive
sobram palavras
onde o sal falta

(morraceira; tirar; 2016)
plantem-me no mar
duvido de tudo
estou vivo
para questionar
alinhados em canteiros
com flores de plástico
visitas em data certa
jazem os que aceitam
mesmo depois de
continuarei a duvidar
recuso o canteiro
plantem-me no mar

(torreira; 2013)
o meu amigo agostinho trabalhito (canhoto)
memória de um dia

falarão dos barcos
dirão moliceiros
ninguém falará de ti
sequer saberão o teu nome
pouco te importa
hoje tens tempo de antena
roubado que seja
mas tens e sorris e falas
não sabes de amanhã
ignoras o ontem
os moliceiros digo
são aves frágeis sem asas
e tu sabes
porque lhes cortaste
as últimas

(regata da ria ; 2010)
a mais ninguém
cinzentos
os dias sucedem-se
monótonos diversos
suceder-se-ão
o tempo
esse assassino impune
a cada dia me leva amigos
levar-me-á
o que o tempo
me não roubou ainda
homens levaram
perdoo ao tempo
é da sua natureza
a mais ninguém
a mais ninguém

(torreira; a escolha; 2009)
do saber ser

o meu amigo alfredo miranda a entralhar
meticulosas mãos
sábias precisas
limpam redes reparam-nas
novas fazem se
haverá amanhã até um dia
sabem-no há muito
aprende com elas
o ser e o ter sido
há avarias irreparáveis
redes perdidas
meticulosas as mãos
sabem-no

o meu amigo alfredo miranda a entralhar
(torreira; entralhar; 2013)
o amor
eis a mão habitada
casa do homem
aberta porta
eis a mão do homem
onde o mundo
línguas várias
eis o homem na mão
inteiro de ser nela
sem máscara
eis o homem-mão
irmão de todos
eis nos olhos
o amor

(lousã; 30_05_2018; 85 anos, tio joão)
o repartir do pão
quando o pouco
é muito

(praia de mira; 2009)
a meta

entrou água no barco
como na casa a lama
ensurdecedoras as palmas
de quase gente
na casa de todos nós
não há pior cegueira
que a dos que vêem
nem palavras mais feras
do que as dos que mentem
ofertando-as como se verdades
do alto se fizeram ouvir
ao rebanho
seguiu-as quem quis
ou melhor não soube porque
muitos anos fazem obra
calejam discernimento
urge escoar as mentes
como o barco
para chegar à meta
(regata da ria; escoar; 2016)

o amigo manuel antão, no moliceiro “A. Rendeiro”