a olhar
mais chaves
que casas
mais portas
que chaves
nem chaves
nem portas
eis-me aqui
a olhar a ria
os amigos
céu aberto
sem casa
sem chaves
sem portas
a olhar

(torreira; safar redes; 2012)
a olhar
mais chaves
que casas
mais portas
que chaves
nem chaves
nem portas
eis-me aqui
a olhar a ria
os amigos
céu aberto
sem casa
sem chaves
sem portas
a olhar

(torreira; safar redes; 2012)
ferreira nunes

ontem dia 13 de maio, no cais do bico, uma ria de gente assistiu ao bota-abaixo do mais novo moliceiro tradicional da ria de aveiro.
chama-se ferreira nunes, como o seu dono, como o pai do dono, como o avô.
o moliceiro é assim, são gerações passadas lembradas no presente, oferecidas aos futuros.
o nelson, filho de antónio ferreira nunes, e os amigos também deram o seu contributo para que o moliceiro chegasse à água.
querem ver povo, muito povo, na murtosa? dêem-lhe moliceiros.
parabéns antónio, parabéns a toda a família, parabéns à murtosa que filhos como este tem.
os que vivem a ria, os que sabem da importância do moliceiro na história deste povo, estão de parabéns.
houve mais um homem que do seu bolso, só do seu bolso, com a ajuda de outros homens com a mesma “frema”, fez mais um moliceiro.
se isto não é amor à terra e à tradição, não sei o que seja.

(murtosa; cais do bico; 13/05/2018)
meditação
dizes
só me insulta
quem eu quero
digo
só me magoa
quem menos espero

(torreira; 2009)
(…)
ao contrário
do artista
a memória
só concebe
esboços

(armazéns de lavos; rer; 2017)
o livro
reinventar o tempo
por dentro
os amigos ainda são
encho-me de mim
e sou de novo
por ser neles eu
um sorriso um olhar
um abraço
empresto-lhes vozes
inventadas
palavras onde moram
é de memórias
que o livro se faz

(ti miguel bitaolra;torreira; 2012)
cálculos
quando se cansou
de somar
subtraiu
quando se cansou
de multiplicar
dividiu
sonhava com
o infinito
e encontrou
o zero
a matemática
não é uma ciência
exacta concluiu
nem eu

rer
(armazéns de lavos; rer; 2017)
o sonho é bandeira

será sempre o sonho
que construirá a realidade
é esta a bandeira do ano
por ela estamos aqui
sonhemos então

(torreira; regata s. paio; 2010)
iludi-me

torreira, 2016_o arrumar das redes da solheira
da estrada larga
dos luminosos caminhos
infinitamente breves
o maior está feito
o sonho a ilusão
aquilo que me fez correr
hoje nada mais que memória
olho para tudo
com o cansaço de ter feito
sem saber se algo feito foi
tenho a sensação de deixar
tudo como era
faz bem perder as ilusões
sempre me senti barco
mas iludi-me com o porto
iludi-me
o trilho estreita-se

diz-se “mexer” (buíça)
o trilho estreita-se
desce entre precipício
e rocha a pique
a espaços um recanto
acolhe o corpo cansado
inesperadas pedras
tombam de onde nunca
ferem mais por isso
mas
não foi sempre assim?
(armazéns de lavos; 2017; mexer)
património nacional

passaram os anos
passaram os homens
manteve-se a rede
chamem-lhe xávega
arte-xávega também
mas que seja
património nacional
(torreira; 2016)