crónicas da xávega (256)


a mais ninguém

cinzentos
os dias sucedem-se
monótonos diversos
suceder-se-ão

o tempo
esse assassino impune
a cada dia me leva amigos
levar-me-á

o que o tempo
me não roubou ainda
homens levaram

perdoo ao tempo
é da sua natureza
a mais ninguém

a mais ninguém

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(torreira; a escolha; 2009)

 

postais da ria (256)


do saber ser

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o meu amigo alfredo miranda a entralhar

meticulosas mãos
sábias precisas

limpam redes reparam-nas
novas fazem se

haverá amanhã até um dia
sabem-no há muito

aprende com elas
o ser e o ter sido

há avarias irreparáveis
redes perdidas

meticulosas as mãos
sabem-no

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o meu amigo alfredo miranda a entralhar

(torreira; entralhar; 2013)

os moliceiros têm vela (311)


a meta

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entrou água no barco
como na casa a lama

ensurdecedoras as palmas
de quase gente
na casa de todos nós

não há pior cegueira
que a dos que vêem
nem palavras mais feras
do que as dos que mentem
ofertando-as como se verdades

do alto se fizeram ouvir
ao rebanho

seguiu-as quem quis
ou melhor não soube porque
muitos anos fazem obra
calejam discernimento

urge escoar as mentes
como o barco
para chegar à meta

(regata da ria; escoar; 2016)

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o amigo manuel antão, no moliceiro “A. Rendeiro”

a beleza do sal (50)


sagradas as palavras

digo das palavras
o sal do sentir

de emoção umas
da razão outras

falam de ti
as tuas palavras

recolho-as no meu dia
onde entraste
porque te convidei

recebo-te nesta casa
onde existir é ser

um copo de água
que o sol queima

acolho-me à sombra
do dizer

sagradas as palavras
onde és

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achegar

(armazéns de lavos; achegar; 2017)

crónicas da xávega (254)


da casa e do mar

moro ao pé do mar
e não o vejo
das minhas janelas

ouço-o nas noites
de temporal
entra na casa como
se sua e eu

as vistas da casa
são outras casas
com outros eus

chamam a isto
cidade
porque muitos

saio de casa
em direcção ao mar
e é sozinho
que me reencontro

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(praia de mira; 2009)

os moliceiros têm vela (310)


deixa

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deixa que as palavras
te procurem
trazidas pelo sentir
de tudo

será poema se for
que isso te não preocupe

deixa que os olhos poisem
sobre tudo em tudo penetrem
e tragam consigo o seres

nada é novo
senão o teu olhar
o teu sentir

o teu dizer
nada acrescenta
a coisa nenhuma

por isso
deixa que as palavras
sejam em ti

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(torreira; regata da ria; 2009)