sou onde estou

rer
o meu lugar
é aqui
o meu tempo
é agora
a minha gente
é aqui e agora
sou onde estou

rer
(armazéns de lavos; 2017)
sou onde estou

rer
o meu lugar
é aqui
o meu tempo
é agora
a minha gente
é aqui e agora
sou onde estou

rer
(armazéns de lavos; 2017)
carta aos resistentes

não se darem as mãos
não serem um
habitado por muitos
admiro que ainda
perguntas-me como
só encontro uma palavra
amor
assim a terra
o entendesse
não se darem as mãos
não serem um
habitado por muitos
não é sonho
é viver ou morrer

(regata do bico; 2017)

escrevo porque

por vezes
só os barcos arribam
à mesma praia
não escrevo
para que me oiças
escrevo porque sinto

(torreira; 2013)
as imagens têm nomes

houve os que partiram
há os que ainda
haverá outros amanhã
guardo muitos comigo
mais que os barcos
mais que as artes
os homens
as mulheres
a canalha
as imagens têm nomes
são gente
sinto-a poisada nos dias
(torreira, 2017)
sorriem muito

mãos de mar, mãos de luta
não tomam posição
sentam-se à mesa do mas
trocam ideias discutem
não concluem nunca
gostam muito do talvez
evitam nãos e sins
são espectadores
que querem palco
de bandeja sem suor
à janela dos dias
esperam um vaso de flores
no peitoril dos olhos
de tão subviventes
conseguem
ser sobreviventes
sorriem muito
(torreira; 2015)
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira
depois de largar e alar
safar peixe se houver
há que safar e arrumar as redes
são muitas as horas
para tão pouco ganho
falo da solheira
o trilho estreita-se

diz-se “mexer” (buíça)
o trilho estreita-se
desce entre precipício
e rocha a pique
a espaços um recanto
acolhe o corpo cansado
inesperadas pedras
tombam de onde nunca
ferem mais por isso
mas
não foi sempre assim?
(armazéns de lavos; 2017; mexer)
sonharei sempre

sonharei sempre
de olhos abertos
atento às palavras
recuso-me a ser
o que cala e aceita
sem questionar
também o sol
que aquece e ilumina
projecta sombra
que dizer da lua
e das suas duas faces
sonharei sempre
de olhos atentos
questionarei
deixo as certezas
para os treinadores
de bancada
levo comigo a dúvida
companheira amiga
na busca de saber
sonharei sempre

o “A. Rendeiro” com o ti zé rebeço e manel antão
(torreira; regata do s. paio; 2015)